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Por Paula Affonso (@paulanocanada)

Sempre vi relatos de brasileiros que foram ao Canadá durante o verão. Não importa a província, ou a cidade nós, brasileiros, gostamos do calor humano e, claro, do clima acima dos 20 graus positivos! Meu curso de inglês na cidade de London,  província de Ontario, foi o início da minha jornada. Hoje já moro no Canadá há mais de 1 ano, mas tudo começou ali, na minha viagem exploratória.

Eu, como tantos outros, sonhava em morar nos Estados Unidos. Canadá nunca foi a primeira opção. Fiz intercambio em Jackson, Michigan (ages ago! 1998), e me apaixonei sobre o “American way of life”. Tudo me encantava, a organização, limpeza dos lugares, segurança, as estações do ano… e minha casa era típica de filmes americanos. Um sonho real! 

Mas tudo aquilo ficou debaixo dos panos por muitos anos. Quando voltei ao Brasil querendo fazer universidade nos EUA minha mãe falava: “Filha, não posso pagar mais de $20 mil dólares por ano!”. E de fato isso era verdade. Impossível em uma época onde a instabilidade econômica era enorme, e a moeda real tinha acabado de entrar em cena.

Voltando ao Canadá, como isto aconteceu? Há dois anos comecei a ver inúmeros brasileiros imigrando para cá. Não entendia. O que este país possuía de tão especial? Por que um país tão frio? Se for para um lugar conhecido, vou para os EUA, claro! Foi assim que minhas pesquisas se iniciaram: busca em sites, consultorias, e meus olhos de repente se abriram. “Nossa, o país é lindo! Frio?! Já passei por inverno fora e adorei! E o inglês? Enferrujado desde 1998.. OMG!” Neste momento não era mais uma adolescente. Era adulta, 35 anos, 3 filhos, formada em direito, analista judiciária do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, marido advogado renomado. O sonho, enfim, era possível.

Só que eu não sabia como estava o meu inglês. Gente, uma coisa é falar inglês durante viagens, sem preocupações, com bolso cheio de dólares para serem gastos. Outra coisa é precisar do idioma para sobreviver, trabalhar, fazer amizades, lidar com as inúmeras situações do dia-a-dia ou fazer college. Experimenta, como teste, contratar um serviço por telefone em inglês que, no momento, verá o seu nível. Muitos do que se intitulam intermediários, estão no nível básico de inglês. Trust me!

Escolhemos o inverno estrategicamente. Queríamos estar aqui no auge. Nas temperaturas abaixo dos 10 graus. Como é o dia-a-dia? O que muda no inverno? Existe lazer durante esta época? Estas são as dúvidas que tínhamos, e garanto que são as dúvidas de igualmente vocês. Nordestina, nascida e criada em Recife, andar descalça, e tomar banho de mar com temperatura alta durante todo o ano é um dos dos prazeres que mais me fazia feliz.  

Enfim, chegamos com a família toda no dia 1º de janeiro de 2018. Passamos o natal em Michigan com minha família americana, e eles nos trouxeram para cá.  Vocês não sabiam? London fica a 200 km de Detroit! Muito perto! Temos vizinhos ricos! Oh yes! Hahaha! A escolha por LONDON não foi por acaso. Pensei: preciso de grandes aeroportos perto! Toronto e Detroit, 200 km. Apenas 2 horas em estradas que vocês já sabem, um tapete. Tamanho: London tem 384 mil habitantes. Não é uma Recife, mas não queria isso. Queria morar no interior, mas não em uma cidade deserta. London é aquele meio termo ideal. Tem 2 shoppings enormes, parques, bares, restaurantes, estação de esqui, e custo de vida bem inferior a cidades grandes. Não se enganem. Toronto é linda, mas custa muito caro. Qualidade de vida era e continua a ser também uma prioridade para nossa família.

Alugamos uma casa mobiliada, na região chamada Masonville por 2 meses, duração do nosso curso. Uma área nobre da cidade, apenas 1 ônibus para o curso de inglês. Matriculamo-nos na escola LONDON LANGUAGE INSTITUTE já do Brasil sob a orientação da HI Bonjour (empresa de consultoria para cursos de inglês e college). Ao ir à escola, pela primeira vez, foi um pouco duvidoso. Chegamos lá e vimos uma casa. Uma casa de 3 andares! Não era em um prédio enorme ou moderno. Não. Uma casa, com cara de interior. Entretanto, fomos recebidos na chegada pelos donos da escola, Justin e Paula com um sorriso largo no rosto,  nos explicaram como seriam as aulas e nos mostraram a escola com orgulho. Naquele momento, olhamos um para o outro, eu para Arlan, Arlan para mim, e suspiramos. Senti que o Canadá estava começando a me conquistar!

Eu,  meu marido, e meus gêmeos de 14 anos, na época, fizemos o teste de nivelamento, e cada um caiu em um nível diferente. Para minha surpresa eu fiquei no AP1, que é considerado nível acadêmico. Meu marido no 4 nível, e os gêmeos no 5. Perfeito para o meu objetivo que era para me preparar para a prova do TOEFL, requisito indispensável para matrícula do college futuramente. 

O primeiro dia de aula eu tenho que compartilhar com vocês, foi uma experiência única! Na noite anterior (dia 06) tinha caído uma tempestade enorme de neve. Quando fomos sair para a aula (estávamos de carro alugado para a primeira semana), o carro atolou no estacionamento pela quantidade de neve no chão. Empurramos, meu marido tentou dar ré, ir para frente e nada. Bateu aquele desespero, pegamos a pá de neve dentro da garagem da casa e, finalmente, nós conseguimos sair com o carro. Curiosidade: as ruas principais são limpas logo cedo, o trânsito flui normalmente, mas dentro dos condomínios e ruas internas geralmente levam um pouco mais de tempo. Chegamos atrasados no primeiro dia de aula! Pensava que todos iriam atrasar, já que tinha acontecido uma tempestade de neve na noite anterior. Não se enganem. Isso faz parte do dia-a-dia deles. E todos estavam lá. Sem exceção. Após este dia, tiramos como lição: pontualidade é levada a sério, e com neve ou sem neve, just be there. 

As aulas eram de segunda à sexta, 9am – 3pm. Somente na sexta que terminava mais cedo, ao meio dia. Durante o dia vários professores se revezavam com o tipo de aprendizado: gramática, vocabulário, reading, listening, writing. Muito diferente do Brasil, a cada 3 dias, prova de um capítulo novo. Toda semana apresentação de trabalho individual, e redação para ser entregue. Eu pensava que seria um curso light (estava de férias, não é verdade?!) Mas tive finais de semana que fiquei em casa para terminar os trabalhos. Tudo é levado muito a sério e os professores exigem o melhor dos alunos. Nos finais de semana o curso oferece passeios pelo Canadá para os alunos que desejarem participar, pagos à parte. Após o primeiro mês já sentia a diferença, meu ouvido estava melhor, comecei a me comunicar com mais facilidade. Não só eu,  mas meus filhos e marido também. Sem exagero, evoluí aqui como se estivesse estudando 1 ano no Brasil.

Dentro da minha sala tinha pessoas do mundo inteiro. Aprendi muito mais do que o idioma. Aprendi a olhar o outro, a entendê-lo, e ver que somos tão iguais e diferentes ao mesmo tempo. Não saia da sala ou ficava com grupos de brasileiros. Aproveitava o intervalo para conversar com meus amigos de sala da Colômbia, da China, da Korea, do México etc. Minha amiga do Brasil fez um pacto comigo: somente conversávamos em inglês. Gente, não é barato o curso fora, e se for para dar um conselho diria: aproveite cada segundo para falar inglês, conhecer outras pessoas, para aprender. Quando voltar para o Brasil você pode falar português à vontade, do not worry!!

Apesar do ritmo puxado eu consegui boas notas. Os professores são sensacionais! Tão abertos às nossas perguntas, e, como faz parte da cultura deles, criticam sem medo, mas com muita educação. Até porque estamos na terra do “sorry”, e esta palavrinha será essencial ao seu vocabulário. Usamos toda hora!!

Sim, Paula e o lazer no inverno?? O curso de inglês fica a 50 m de um lindo parque chamado Victoria Park. Um dos inúmeros da cidade. Durante o inverno eles colocam pista de patinação no gelo, e fica lotado nos fins de semana. Outro passeio super legal é Boler Mountain, uma estação de esqui dentro da cidade. Funciona durante todo o inverno. Trilhas, patinação no gelo, esquiar, e outras atividades são comuns para os canadenses. Outra curiosidade: corredores praticam o esporte normalmente durante o inverno. Eles colocam um acoplamento especial no tênis e vão para as ruas. Eu mesma, como sou viciada no crossfit, fiz a matrícula em um box de crossfit próximo da escola e ia todos os dias. Aulas cheias, com neve, ou sem. Passeios legais também são ir a Toronto no inverno. A cidade é agitada em qualquer estação, e sempre tem o que se fazer por lá.  Niagara Falls também é linda, apesar de gelada. Ah, e não se esqueçam de ir a um jogo de hóquei, diversão garantida. Vá por mim!!

Outro ponto importante: as roupas. Nada do Brasil funciona por aqui. Deixe para comprar os casacos de neve, botas, gorros, luvas etc. quando chegar. Preço muito mais barato e aguentam temperaturas baixas. Saibam também que tem aquecedor em todos os lugares. Chega às vezes a dar calor dentro de certos lugares. É um tira casaco, coloca casaco, toda hora. Até na hora de lavar prato. Aquela água quentinha faz toda a diferença.  Just relax and enjoy the winter!

Considero-me uma nordestina atípica. Chorei muitas vezes ao ver a neve caindo. Mesmo! Penso em Deus, sinto-me próxima Dele. Tenho este mesmo sentimento quando dou um mergulho no mar. Sinto a natureza e tudo o que ela nos oferece. Vivenciei tempestade, cai com gelo no chão, senti frio ainda que agasalhada certos dias à noite, mas nunca deixei de contemplar cada momento. Digo a você que quer sair da zona de conforto: venha no inverno. Vivencie este desafio. Não irá se arrepender. O Canadá é muito mais do que o frio. É o país da aceitação, do multiculturalismo e, consequentemente, da oportunidade.

Voltamos para o Brasil dia 26 de fevereiro. Coração apertado e a certeza de que iríamos voltar. Dia 16 de agosto de 2018, nos mudamos para cá. Foi rápido não é?! Espero compartilhar com vocês como foi o nosso segundo passo! Até breve!

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